Sentado num canto qualquer ele só ouve seus próprios lamentos, só vê o que as paredes lhe permitem. Não sente mais medo, apenas dor. Uma dor profunda e cortante que atravessa sua carne como uma navalha afiada. Ele quer se levantar, mas seus músculos travam a cada tentativa de movimento. Ele range os dentes na tentativa de gritar, mas a voz não responde. Sente um vazio e sabe que não é somente a fome: é a dor, a infinitude da dor que não o abandona. O corpo nu não o oferece ao frio, mas o expõe ao constrangimento pois, apesar de saber que não há ninguém ali, tem a sensação de estar sendo observado.
Finalmente, com muito esforço, ele se levanta. Caminha com dificuldade até a porta e força a maçaneta. Trancada. Ele então perde o ultimo fio da esperança que ainda o acompanhava. Volta ao seu canto e tenta adormecer, mas o sono já não existe pra ele.
Depois de um tempo, que não se sabe longo ou curto, ele ouve um ruído. Olha em direção à porta e o medo o acolhe. Sente o corpo suar, apesar de não ter nenhuma sensação de calor. De repente, a memória lhe traz lembranças de sua casa, sua família e seus amigos. Enchendo-se de coragem, caminha até a porta. A luz que vem dela ofusca seus olhos e ele tenta protegê-los com as mãos. Assim que atravessa a porta, ela se fecha. Assustado ele olha pra trás, mas já não há mais tempo. A luz se apaga e a escuridão o engole.
Escrito em 29/07/2003 a mão em um papel qualquer. Fiquei feliz em achar esse texto na casa da minha mãe essa semana. Passei 10 dias por lá pra descansar um pouco e botar a cabeça no lugar. Ver esse texto me fez lembrar que essa não é a primeira crise interna que eu sofro. É no mínimo a quinquagésima nesses 23 aninhos de vida. Não sei de onde tiro tantos motivos pra ter crises internas, mas sempre é algo importante. A diferença, é que já não escrevo mais quando estou em crise…pelo menos antes rendia alguma coisa ter crises. Anyway, em frente! Foi a lição que aprendi com o Serjão. E de tatuagem nova e tudo!!
Nova era começando…