Parte I

By Cylene

- Escreve a história da minha vida? – perguntou ele, deitado na linha de visão do meu pé. Não tive o que dizer. Era difìcil dizer não praqueles olhos. A mesma música, ininterruptamente rodava no aparelho de som. Lá fora o sol brilhava no meio da preguiçosa tarde de segunda-feira. Eu agia como se nada estivesse acontecendo, como se a vida não passasse pelos meus olhos. Ele falava, eu ouvia. Parecia cansado. A vida não é fácil pra ninguém enfim. Fico pensando em quem é realmente forte nessa história toda. Fiz o que naturalmente o instinto de mulher faz: cuida. Peguei a toalha, tomou banho. Depois se aconchegou nos meus bracos. Descansou. Aí o mundo voltou a girar e ele foi embora. Voltou. Trouxe a diversão da noite e saímos. Conversamos pouco. Falou pouco, ao contrário das outras vezes. Se preparou e inspirou. Uma. Duas vezes. Não resisti. E ele quieto, inquieto. Novamente, a mesma música no aparelho de som. A noite quente, sem lua. Eu sentada no chão. Ele, num banco, distante. – Vai, eu disse. Ele: – Acho que é o correto. E eu, que gosto das coisas corretas, não disse nada. Ele sabia que eu não diria. – Mais uma, eu pedi. E lá fomos nós. Depois, pegou o capacete. – Sabe que a gente não vai se ver tão cedo né? – eu disse ainda no chão. Ele se abaixou, me beijou. Correspondi pouco e olhei pra baixo. – Não sei não…E me olhou da porta. Me perguntou se eu o acompanharia até o portão. Fiz que não com a cabeça e ele saiu. Lembro de ainda pensar que ele podia mudar de idéia e voltar. Não ia chorar. Ouvi o barulho da moto se afastar. Aumentei um pouco o som, fechei a porta. E chorei.

Deixe uma resposta