





Ela acordou no meio da noite, assustada e chorando, dizendo que havia tido um pesadelo terrível. Ele, apreensivo perguntou o que ela tinha sonhado de tão ruim e ela lhe disse em meio ao choro que uma polonesa o tiraria dela. Moravam em Praga, ele brasileiro, ela tcheca. Casados há 4 anos, um lindo filho. Ele, guia turístico da capital Tcheca; ela, dançarina e streaper numa boate. Se amavam o suficiente pra que ele risse daquela bobagem, a consolasse com um beijo e pedisse carinhosamente pra que voltasse a dormir. Acordaria cedo no dia seguinte pra buscar um grupo de quarenta turistas brasileiros que chegariam a tarde no aeroporto de Budapeste. Ela, ainda assustada tentou dormir, provavelmente pensando nos dias que passaria longe do marido, já que ele acompanharia aquele grupo pela Europa durante quinze dias. “- Depois”, pensou ela, “ele será só meu. Passaremos nossa lua-de-mel em Lisboa.” Ainda pensando nos dias que passariam em Portugal, adormeceu.
21 de julho de 2006, um final de tarde quente em Budapeste. Cansada da viagem de mais de 10 horas, com um fuso horário maluco, espero minha mala na esteira do aeroporto. Ansiosa por minha primeira ida à Europa, por chegar no hotel e descansar um pouco, por ver tudo, conhecer tudo. Finalmente alcanço a pesada mala, retiro da esteira e me junto ao restante do grupo na porta do aeroporto. Foi a primeira vez que o vi. Ele estava na porta de um ônibus conversando com quem parecia ser o motorista. Falavam algo sobre como acomodar todas as malas dentro do ônibus e o trajeto que fariam até o hotel. Percebi que era nosso guia e não pude deixar de notá-lo. Nos cumprimentamos, acomodei minha bagagem e seguimos para o hotel. Cansada, cheguei e fui dormir. Foram três dias em Budapeste e, na última noite decidi dormir cedo, já que embarcaríamos pra Viena na manhã do dia seguinte. Trocamos poucas palavras durante esse três dias. O suficiente pra eu saber que era casado, brasileiro e morava em Praga.
A viagem pra Viena foi cansativa, mas linda. O tempo estava quente, chegaríamos cedo e eu ainda teria tempo de perambular pela cidade atrás de souvenirs. Andei o dia todo, comprei algumas coisas e voltei ao hotel no final da tarde. Deixei as coisas no quarto, tomei um banho e desci para um merecido cigarro. Foi quando o encontrei também sentado no hall do hotel. Conversamos um pouco ele perguntou qual era a origem do meu sobrenome. “Polonesa”, respondi. “É ela!”, pensou ele, sem que eu imaginasse o impacto que aquela informação havia tido. Terminei meu cigarro e me levantei, dizendo que iria subir pra me arrumar pro jantar com o grupo. “Quem sabe uma cerveja mais tarde?”, ele disse. “Claro”, respondi sorrindo já entrando no elevador.
Saímos pela linda Viena logo após o jantar. Já noite, a cidade iluminada, estava ainda mais radiante. E quente, aos trinta graus do verão europeu. Conversamos a noite toda, ávidos por sabermos mais um do outro. Nos olhávamos nos olhos e era nítido que alguma coisa acontecia ali. Rimos, bebemos…e nos beijamos. Saímos de um bar pra outro, no subsolo escuro do centro da cidade. Voltamos bêbados para o hotel, direto para o quarto dele. Trepamos a noite toda como se nos conhecêssemos há uma vida. Saí de lá com o dia claro, direto para o meu quarto. No restaurante do hotel, meu grupo já tomava café da manhã para um dia de tour em Viena. Tomei um banho e me juntei a eles. Estava terminando meu café quando o avistei vindo em direção a minha mesa. Gentilmente cumprimentou todos a minha volta, olhou pra mim e sorriu, sentando-se ao meu lado. Tomamos café em silêncio, enquanto as pessoas conversavam animadas. Terminei meu café, pedi licença e retornei ao meu quarto.
Daquele dia em diante, todas as noites saíamos juntos. Durante o dia, com as pessoas por perto, não podíamos nos tocar. Restavam algumas pequenas coisas: pequenos beijos roubados, rápidos olhares ou sorrisos, piadas feitas em público que só nós dois entendíamos.
Foram mais dez dias juntos entre Praga, Dresden, Berlim e Varsóvia. Nos despedimos dia primeiro de setembro pela manhã, quando eu segui pra Cracóvia e ele, pra lua-de-mel em Lisboa. Chorei em alguns momentos durante os meus cinco dias restantes de viagem. Era impressionante como um relacionamento tão curto havia sido tão intenso. Fui a primeira pessoa que ele teve fora do casamento, e que, segundo ele, foi o que lhe fez perceber que a esposa não era a mulher da sua vida. Pra mim, ficara um vazio, eu nem sabia se voltaríamos a nos ver de novo. Depois da minha volta ao Brasil, trocamos emails e pequenas mensagens de texto pelo celular, durante esses dois anos. Ele se separou, abriu uma empresa em Praga e anda muito bem sucedido por lá. Eu tive outros namorados, outros empregos, nunca mais voltei à Europa e segui minha vida normalmente. Mas a saudade sempre aperta vez ou outra. Nos encontramos ainda em sonhos ou em emails escritos como desabafos de tudo o que vivemos e sentimos, cada um do seu lado do oceano, mas sempre com a mesma intensidade. Ficou pra mim como uma história de uma paixão na Europa. Marcante, intensa, um sonho.
Não temia que a insegurança me pegasse de novo, até saber que daqui a um mês nos encontraremos de novo. Desta vez aqui, na terrinha brasilis. E cá estou eu, todos os dias, relembrando essa história e esses momentos. A ansiedade corroendo. E por mais que eu saiba que nos veremos poucas vezes enquanto ele estiver por aqui, é difícil controlar essa onda de sentimentos que volta…
Mas apesar de toda a insegurança, é nesse pique que 2009 começa pra mim: com a realização de sonhos…!