Fragmentos de Plínio Marcos

Abril 25, 2009 por Cylene

Senhoras e senhores…Duas vezes eu fui milionário nessa terra. Duas vezes perdi tudo o que tinha nos prazeres desse mundo. Duas vezes, com a minha infinita cara de pau, fui aos pés de Deus, e Deus, na sua infinita bondade mandou que seus anjos devolvessem tudo o que eu havia perdido. Mas mulheres ligeiras, cavalos lerdos, roletas viciadas, banqueiros filhos da puta – olha eu aqui outra vez, na merda, tendo que vender meus livros na rua.

(…)

A sociedade é uma merda de consumo e competição constante. Sem recreio. Dá até medo de olhar a fuça das pessoas, carrancudas, empedradas. São possessivas. Elas vão andando. Correndo como sonâmbulas atrás de sonhos. As ilusões criadas pelas propagandas lhes são empurradas. Pelos olhos e pelos ouvidos. Até o fundo das entranhas pelos veículos de comunicação. Técnicas apuradas a serviço do consumismo. O indivíduo vai sendo massificado e se tornando infeliz por não poder comprar o que os outros têm. Hipnotizados pelo ponto brilhante.

(…)

A gentalha sisuda precisa sorrir. Esse tempo é mau. Os homens, para rirem de seus melhores palhaços, que sem dúvida nenhuma estão na televisão contratados, precisam da grotesca sugestão de um disco de risadas.

(…)

Seiscentos mil migrantes por ano chegam nessa porra que é chamada Capital do Progresso. Foda. Foda do primeiro ao quinto, de verde e amarelo, sem vaselina. Gente apinhada, aflita, tensa, desesperada. Vale tudo. Não são mais os contadores de histórias, os camelôs, os saltimbancos, os truqueiros que vão pro trampo nas ruas de São Sereré. A vocação já não pesa na balança. Os homens que saíram da casa do caralho, com família pra sustentar, pra tentar emprego e não conseguiram, apelam. Ou assaltam, ou pedem esmolas, ou vão marretar nas encruzas. Um triste ambulante sem artimanha, trampando na aflição. Desde os pequeninos até os mais velhos. Vendem balas, flores, flanela pra automóvel, laranja, limão, bilhete, churrasco, boné e os cambaus. Badulaque a preço de ocasião. Por volta da hora da Ave Maria, gente apinhada, espremida de corpo e alma, forçada ao sórdido trabalho repetitivo. Apavorados, violentos, sem dinheiro. Mas precisando comprar. Hipnotizados pelo ponto brilhante.

(…)

Aos quinze, dezesseis anos, o ser humano está se preparando para a jornada mais solitária de sua existência. Nesse momento, a criança tem em si poesia, fraternidade, beleza pura. Mas geralmente a criança não tem como fluir toda essa beleza. São os mais sofridos poetas. Nessa fase, as pessoas só podem ser comparadas a Jesus no deserto. Jesus teve de ficar quarenta dias e quarenta noites sozinho no deserto para escutar suas vozes interiores, seus apelos vocacionais, sabe Deus assumidos onde, pra depois poder enfrentar o diabo. Ele não é tão feio quanto se pensa, mas sabe incutir o medo que outros demônios lhe incutiram antes. O garoto chega em casa e declara “Papai, descobri minha vocação. Vou ser poeta”. O pai tem um chilique e convoca todos os outros diabos da redondeza. É claro que eles não vêm com chifres, rabos e cheirando a enxofre. Vem com cara de mãe, avó, professor, sacerdote, médico, psicólogo. Um inferno. Tentam incutir o pavor no futuro do garoto. “Poeta só se fode”. “Poeta é bicha”. “Poeta morre de fome”. “Se tu entrar na medicina, te dou um carro”. “Pois eu prefiro ser pai de prostituta rica a de poeta pobre”. Olha esse rio de sangue que está escorrendo pelo ventre da mãe Terra. Vê. Sinta esse fedor que vem dos campos de extermínio nazista, do centro de Hiroshima, de matanças no norte, sul, leste, oeste…maldita ganância. Doentes. O mundo nunca precisou tanto de poetas.

Trechos do espetáculo “O Bicho de São Sereré”, baseado na obra literária “Prisioneiro de uma canção”, de Plínio Marcos.

Mas se um dia a festa terminar…

Abril 20, 2009 por Cylene

De volta pra Jacareí depois de um final de semana incrível em São Paulo. Reencontros com os amigos mais queridos, muita festa, muita música e muita energia boa. Ontem, quando cheguei em Jacareí, já em casa, me peguei lembrando dos momentos da festa e morrendo de saudade das pessoas todas. Queria tanto que o final de semana voltasse, começasse tudo de novo…
No final é isso mesmo. Você percebe que são os amigos que te energizam…que te dão a força pra seguir em frente. E que, mesmo trabalhando hoje, emenda de feriado, o pique é diferente. A vontade e o humor também…Só sinto de estar longe, não poder marcar aquela cervejinha no final da tarde, mas em compensação, os momentos que tenho com eles se tornam memoráveis, únicos, justamente porque são poucos.

I was there!!!

Abril 8, 2009 por Cylene

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Show do KISS ontem em São Paulo.  Do caralho, do caralho, do caralho!!! Ouvi músicas que me lembraram domingos de manhã, quando eu era criança e acordava ao som das músicas que meu pai ouvia, no último volume. Nostalgia boa…

Inesquecível e incrível. A companhia, o local de onde vimos todo o show e, principalmente, a sensação de não acreditar estar a poucos metros de Gene Simons e Paul Stanley….Tô babando até agora…os caras fazem com que o show todo seja uma experiência multisensorial…..muita luz, muito visual, muito som que, em alguns momentos, chegaram a pulsar pelo Anhembi inteiro fazendo o chão e o corpo tremer…

Foda…só isso pra dizer. Os caras comemorando 35 anos de banda, com uma sintonia incrível no palco e mandando muuuito bem. Foda.

Merda.

Abril 6, 2009 por Cylene

dia de merda.

semana de merda.

idéia de merda vir morar nessa cidadezinha de merda.

e só.

a carta.

Março 27, 2009 por Cylene

vo-e-cy

Vô,

Domingo mudamos pra casa nova. Linda, grande, com um gramado imenso pros cachorros. Meu quarto está lindo, tenho um banheiro só pra mim. O problema são as caixas, espalhadas pela casa toda. Achar qualquer coisa é um tormento, praticamente uma caça ao tesouro…

Enfim, achamos umas caixas de fotos que eu queria há tempos. O lado bom de mudança é isso: você sempre acha coisas que está procurando há anos! Vi todas as fotos…fotos antigas, fotos mais novas e, para a minha surpresa, essa foto ai em cima. Esta, com outras duas que também separei, são as três fotos mais lindas da caixa toda. Essa pequenininha ai sou eu, lembra? Tinha acabado de completar dois anos…Quando vi a foto, não pude deixar de notar o sorriso no seu rosto, o carinho nos seus olhos, a nossa sintonia. Na mesma hora me veio à cabeça sua voz me chamando de “minha loirinha”. Da última vez que conversamos, você me chamou de minha loirinha e eu rebati, rindo, dizendo que já não era mais loira fazia tempo. Você sorriu e me disse que, pra você, eu seria sempre a sua loirinha…

Cresci vô. E nos últimos anos, não falávamos muito. Os momentos em que resolvemos falar muito acabamos brigando. Mas tenho a impressão de que não precisávamos falar. Você sabia o quanto tenho de você, o quanto somos parecidos, o quanto meus genes carregam de você. Sinto saudade. Vejo essa foto e percebo que foi um dos lindos momentos que teremos para sempre. No coração e nessa fotografia. Éramos só nós, um momento único e nosso, só nosso. Que vai ficar pra sempre no meu coração e na minha lembrança.

Hoje faz um ano. Faz um ano que você nos deixou aqui e passou a olhar por nós de um lugar melhor. Como última homenagem te deixei uma frase: “Como é grande o silêncio quando os poetas dormem”. Foi isso que ficou pra nós depois que você partiu vô. O silêncio. Do poeta que você foi pelas coisas simples que dizia, mas que continham toda a verdade das crianças e a sensibilidade dos poetas…Você foi embora, mas o nosso momento ficou. Eternizado por essa foto. 

Porque pra você, ah vô…pra você eu serei sempre a sua loirinha.

 

Te amo.

um ano.

Março 25, 2009 por Cylene

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Há exatamente um ano atrás Sérgio de Souza se foi. E junto com ele, o sonho de tocarmos a Caros Amigos da maneira como ele havia idealizado. Nada foi em vão e esbarramos em várias pessoas pelo caminho que nos ajudaram a seguir em frente e carregar dentro da cada um de nós um pouco do Serjão. Nunca conheci pessoa igual…nunca conheci alma igual. Nunca, em tão pouco tempo de convivência, alguém me ensinou tanto.
Existem várias coisas que queria dizer sobre esse mestre com quem tive a honra de trabalhar e aprender. Mas tudo me entala na garganta quando percebo que já se foi um ano, muita coisa mudou e aconteceu, mas a saudade e a dor que sentimos continuam as mesmas.

Que falta faz…!

Devo, não nego e escrevo quando puder…

Março 4, 2009 por Cylene

Eu sei, eu sei….preciso atualizar o blog. Não que alguém esteja me cobrando isso, mas sei que preciso. É que estou em fase de transição. Me mudei de São Paulo dia 15, voltei pra Jacareí…ainda está tudo se adaptando. Assim que eu conseguir um tempinho e uma mesa de trabalho pra postar fora do horário de trabalho (pois é, não poderia estar fazendo isso aqui), eu venho contar as novidades.

Por enquanto….ah, por enquanto leiam os posts antigos e daqui uns dias, voltem. Vai ter coisa nova na casa!

Back to reality

Fevereiro 8, 2009 por Cylene

E daí que minhas férias acabaram e minha lua-de-mel também. Dos dias, fica ainda o sentimento e as memórias, fotos pra organizar, álbuns pra montar e a saudade. Agora é tocar, mirar o objetivo e colocar tudo em prática. Tô cheia de problemas pra resolver, cheia de contas pra pagar, precisando de um emprego e sem nenhum dinheiro. Mesmo assim feliz. Foi o melhor janeiro da minha vida. Estou de volta. Em breve, novidades. Por ora, as memórias…

Nem precisa dizer muito…

Fevereiro 2, 2009 por Cylene

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Em plena lua-de-mel…feliz, feliz!

De como se sucedem as coisas…

Dezembro 22, 2008 por Cylene

Ela acordou no meio da noite, assustada e chorando, dizendo que havia tido um pesadelo terrível. Ele, apreensivo perguntou o que ela tinha sonhado de tão ruim e ela lhe disse em meio ao choro que uma polonesa o tiraria dela. Moravam em Praga, ele brasileiro, ela tcheca. Casados há 4 anos, um lindo filho. Ele, guia turístico da capital Tcheca; ela, dançarina e streaper numa boate. Se amavam o suficiente pra que ele risse daquela bobagem, a consolasse com um beijo e pedisse carinhosamente pra que voltasse a dormir. Acordaria cedo no dia seguinte pra buscar um grupo de quarenta turistas brasileiros que chegariam a tarde no aeroporto de Budapeste. Ela, ainda assustada tentou dormir, provavelmente pensando nos dias que passaria longe do marido, já que ele acompanharia aquele grupo pela Europa durante quinze dias. “- Depois”, pensou ela, “ele será só meu. Passaremos nossa lua-de-mel em Lisboa.” Ainda pensando nos dias que passariam em Portugal, adormeceu.

21 de julho de 2006, um final de tarde quente em Budapeste. Cansada da viagem de mais de 10 horas, com um fuso horário maluco, espero minha mala na esteira do aeroporto. Ansiosa por minha primeira ida à Europa, por chegar no hotel e descansar um pouco, por ver tudo, conhecer tudo. Finalmente alcanço a pesada mala, retiro da esteira e me junto ao restante do grupo na porta do aeroporto. Foi a primeira vez que o vi. Ele estava na porta de um ônibus conversando com quem parecia ser o motorista. Falavam algo sobre como acomodar todas as malas dentro do ônibus e o trajeto que fariam até o hotel. Percebi que era nosso guia e não pude deixar de notá-lo. Nos cumprimentamos, acomodei minha bagagem e seguimos para o hotel. Cansada, cheguei e fui dormir. Foram três dias em Budapeste e, na última noite decidi dormir cedo, já que embarcaríamos pra Viena na manhã do dia seguinte. Trocamos poucas palavras durante esse três dias. O suficiente pra eu saber que era casado, brasileiro e morava em Praga.

A viagem pra Viena foi cansativa, mas linda. O tempo estava quente, chegaríamos cedo e eu ainda teria tempo de perambular pela cidade atrás de souvenirs. Andei o dia todo, comprei algumas coisas e voltei ao hotel no final da tarde. Deixei as coisas no quarto, tomei um banho e desci para um merecido cigarro. Foi quando o encontrei também sentado no hall do hotel. Conversamos um pouco ele perguntou qual era a origem do meu sobrenome. “Polonesa”, respondi. “É ela!”, pensou ele, sem que eu imaginasse o impacto que aquela informação havia tido. Terminei meu cigarro e me levantei, dizendo que iria subir pra me arrumar pro jantar com o grupo. “Quem sabe uma cerveja mais tarde?”, ele disse. “Claro”, respondi sorrindo já entrando no elevador.

Saímos pela linda Viena logo após o jantar. Já noite, a cidade iluminada, estava ainda mais radiante. E quente, aos trinta graus do verão europeu. Conversamos a noite toda, ávidos por sabermos mais um do outro. Nos olhávamos nos olhos e era nítido que alguma coisa acontecia ali. Rimos, bebemos…e nos beijamos. Saímos de um bar pra outro, no subsolo escuro do centro da cidade. Voltamos bêbados para o hotel, direto para o quarto dele. Trepamos a noite toda como se nos conhecêssemos há uma vida. Saí de lá com o dia claro, direto para o meu quarto. No restaurante do hotel, meu grupo já tomava café da manhã para um dia de tour em Viena. Tomei um banho e me juntei a eles. Estava terminando meu café quando o avistei vindo em direção a minha mesa. Gentilmente cumprimentou todos a minha volta, olhou pra mim e sorriu, sentando-se ao meu lado. Tomamos café em silêncio, enquanto as pessoas conversavam animadas. Terminei meu café, pedi licença e retornei ao meu quarto.
Daquele dia em diante, todas as noites saíamos juntos. Durante o dia, com as pessoas por perto, não podíamos nos tocar. Restavam algumas pequenas coisas: pequenos beijos roubados, rápidos olhares ou sorrisos, piadas feitas em público que só nós dois entendíamos.

Foram mais dez dias juntos entre Praga, Dresden, Berlim e Varsóvia. Nos despedimos dia primeiro de setembro pela manhã, quando eu segui pra Cracóvia e ele, pra lua-de-mel em Lisboa. Chorei em alguns momentos durante os meus cinco dias restantes de viagem. Era impressionante como um relacionamento tão curto havia sido tão intenso. Fui a primeira pessoa que ele teve fora do casamento, e que, segundo ele, foi o que lhe fez perceber que a esposa não era a mulher da sua vida. Pra mim, ficara um vazio, eu nem sabia se voltaríamos a nos ver de novo. Depois da minha volta ao Brasil, trocamos emails e pequenas mensagens de texto pelo celular, durante esses dois anos. Ele se separou, abriu uma empresa em Praga e anda muito bem sucedido por lá. Eu tive outros namorados, outros empregos, nunca mais voltei à Europa e segui minha vida normalmente. Mas a saudade sempre aperta vez ou outra. Nos encontramos ainda em sonhos ou em emails escritos como desabafos de tudo o que vivemos e sentimos, cada um do seu lado do oceano, mas sempre com a mesma intensidade. Ficou pra mim como uma história de uma paixão na Europa. Marcante, intensa, um sonho.

Não temia que a insegurança me pegasse de novo, até saber que daqui a um mês nos encontraremos de novo. Desta vez aqui, na terrinha brasilis. E cá estou eu, todos os dias, relembrando essa história e esses momentos. A ansiedade corroendo. E por mais que eu saiba que nos veremos poucas vezes enquanto ele estiver por aqui, é difícil controlar essa onda de sentimentos que volta…

Mas apesar de toda a insegurança, é nesse pique que 2009 começa pra mim: com a realização de sonhos…!