Senhoras e senhores…Duas vezes eu fui milionário nessa terra. Duas vezes perdi tudo o que tinha nos prazeres desse mundo. Duas vezes, com a minha infinita cara de pau, fui aos pés de Deus, e Deus, na sua infinita bondade mandou que seus anjos devolvessem tudo o que eu havia perdido. Mas mulheres ligeiras, cavalos lerdos, roletas viciadas, banqueiros filhos da puta – olha eu aqui outra vez, na merda, tendo que vender meus livros na rua.
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A sociedade é uma merda de consumo e competição constante. Sem recreio. Dá até medo de olhar a fuça das pessoas, carrancudas, empedradas. São possessivas. Elas vão andando. Correndo como sonâmbulas atrás de sonhos. As ilusões criadas pelas propagandas lhes são empurradas. Pelos olhos e pelos ouvidos. Até o fundo das entranhas pelos veículos de comunicação. Técnicas apuradas a serviço do consumismo. O indivíduo vai sendo massificado e se tornando infeliz por não poder comprar o que os outros têm. Hipnotizados pelo ponto brilhante.
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A gentalha sisuda precisa sorrir. Esse tempo é mau. Os homens, para rirem de seus melhores palhaços, que sem dúvida nenhuma estão na televisão contratados, precisam da grotesca sugestão de um disco de risadas.
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Seiscentos mil migrantes por ano chegam nessa porra que é chamada Capital do Progresso. Foda. Foda do primeiro ao quinto, de verde e amarelo, sem vaselina. Gente apinhada, aflita, tensa, desesperada. Vale tudo. Não são mais os contadores de histórias, os camelôs, os saltimbancos, os truqueiros que vão pro trampo nas ruas de São Sereré. A vocação já não pesa na balança. Os homens que saíram da casa do caralho, com família pra sustentar, pra tentar emprego e não conseguiram, apelam. Ou assaltam, ou pedem esmolas, ou vão marretar nas encruzas. Um triste ambulante sem artimanha, trampando na aflição. Desde os pequeninos até os mais velhos. Vendem balas, flores, flanela pra automóvel, laranja, limão, bilhete, churrasco, boné e os cambaus. Badulaque a preço de ocasião. Por volta da hora da Ave Maria, gente apinhada, espremida de corpo e alma, forçada ao sórdido trabalho repetitivo. Apavorados, violentos, sem dinheiro. Mas precisando comprar. Hipnotizados pelo ponto brilhante.
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Aos quinze, dezesseis anos, o ser humano está se preparando para a jornada mais solitária de sua existência. Nesse momento, a criança tem em si poesia, fraternidade, beleza pura. Mas geralmente a criança não tem como fluir toda essa beleza. São os mais sofridos poetas. Nessa fase, as pessoas só podem ser comparadas a Jesus no deserto. Jesus teve de ficar quarenta dias e quarenta noites sozinho no deserto para escutar suas vozes interiores, seus apelos vocacionais, sabe Deus assumidos onde, pra depois poder enfrentar o diabo. Ele não é tão feio quanto se pensa, mas sabe incutir o medo que outros demônios lhe incutiram antes. O garoto chega em casa e declara “Papai, descobri minha vocação. Vou ser poeta”. O pai tem um chilique e convoca todos os outros diabos da redondeza. É claro que eles não vêm com chifres, rabos e cheirando a enxofre. Vem com cara de mãe, avó, professor, sacerdote, médico, psicólogo. Um inferno. Tentam incutir o pavor no futuro do garoto. “Poeta só se fode”. “Poeta é bicha”. “Poeta morre de fome”. “Se tu entrar na medicina, te dou um carro”. “Pois eu prefiro ser pai de prostituta rica a de poeta pobre”. Olha esse rio de sangue que está escorrendo pelo ventre da mãe Terra. Vê. Sinta esse fedor que vem dos campos de extermínio nazista, do centro de Hiroshima, de matanças no norte, sul, leste, oeste…maldita ganância. Doentes. O mundo nunca precisou tanto de poetas.
Trechos do espetáculo “O Bicho de São Sereré”, baseado na obra literária “Prisioneiro de uma canção”, de Plínio Marcos.





